30 de julho de 2009

Recado para Oscar

o telefone tocou no meio da noite e ele atendeu rapidamente, saltando da cama como se um século não pesasse nos ombros nem nas pernas. Do outro lado da linha uma voz conhecida mas que ele não ouvia a mais de 15 anos.
- Oscar?
- Sim, sou eu, quem fala?
- É o Roberto, Roberto Burle Marx. Quanto tempo hein Oscar? Nunca pensei que ia demorar tanto pra você vir pra cá. Olha, desculpa o mau jeito de te ligar assim no meio da noite. É que essas conversas só funcionam quando vocês vivos estão meio dormindo meio acordados. Olha Oscar, nós andamos conversando muito sobre você nos últimos anos. Impressionante como os anos passam depressa aqui, acho que diante da eternidade tudo fica minúsculo..... mas sobre isso a gente conversa depois quando você chegar. O Lucio foi contra, acha que você não vai ouvir, mas o resto do pessoal me pediu pra te dar o recado. É o seguinte, nós estamos todos preocupados com o que você anda fazendo atualmente. Cada prédio mal detalhado, mal construído. Para Oscar. Para e vai curtir as homenagens que você merece. Vai desenhar suas mulheres curvilíneas e para de desenhar esses prédios com curvas sem sentido. Se for por dinheiro arruma um jeito de vender seus desenhos. O Corbusier fez isso quando viu que seus projetos já não tinham a mesma força. Eu também passei a pintar mais e projetar menos quando percebi que os jardins já não saiam com a mesma vivacidade. E com esses prédios sem graça você está arruinando a sua biografia Oscar. Aquele moço do New York Times escreve muita bobagem mas acertou na mosca em 2007 quando disse que você estava vivendo o suficiente para estragar sua própria obra. O Charles Moore ficou muito meu amigo (não sei como não o conheci antes, um amor o Charles) e sempre fala do arrependimento de fazer aquela Piazza di Italia em New Orleans. Uma pracinha a menos e a obra do Charles ficaria muito mais íntegra. Você já acumula uma dezena de “piazzas” Oscar e ainda quer fazer uma grande bem no meio do eixo monumental! Já não basta enfiar um auditório no meio da Casa do Baile, aquela biblioteca sem livros em Brasília ou esse Centro Administrativo no caminho de Confins. Aliás, passa em Confins pra você lembrar a beleza do detalhamento do Milton. Se você ainda tivesse gente como o Milton ou o Lelé pra detalhar seus esboços.... Você não precisa disso Oscar, já é de longe o mais importante arquiteto das Américas no século XX (o Frank tá aqui resmungando mas pra começar ele nasceu no século XIX). Desenhe Oscar. Escreva Oscar. Esse negócio de arquitetura dá trabalho demais e quando feito as pressas fica muito ruim. Olha, tá todo mundo mandando um abraço e dizendo pra você demorar bastante. Na verdade a gente morre de inveja da sua longevidade (e alguns do seu talento).

algum tempo depois ele acordou e foi se vestir. Ia receber muita gente no escritório para mostrar mais um projeto (desenhado ontem) para mais um político enraizado nas idéias e nas formas do século passado.

* texto escrito por Fernando Lara - parede de meia.

23 de julho de 2009

majestade


4.
Poucos anos atrás, surpreendido por um pesado aguaceiro, com umas duas horas à toa depois de esperar por um amigo que acabou não aparecendo para almoçar, fui me abrigar num prédio de granito e vidro fumê na Victoria Street, em Londres, sede da filial do McDonald's em Westminster. O clima dentro da lanchonete era solene e concentrado, Os clientes comiam sozinhos, lendo jornais ou olhando para os ladrilhos marrons, mastigando com uma severidade e rispidez que fariam a atmosfera de uma estrebaria parecer sociável e bem-educada.
O ambiente servia para tornar absurdos todos os tipos de idéia: que os seres humanos podem às vezes ser generosos uns com os outros sem esperança de receber alguma coisa em troca; que os relacionamentos ocasionalmente podem ser sinceros; que a vida talvez valha a pena suportar... O verdadeiro talento da lanchonete estava na geração de ansiedade. A luz dura, os sons intermitentes de batatas congeladas mergulhando em bacias de óleo e o comportamento frenético dos funcionários no balcão convidavam a se pensar em solidão e na falta de sentido da existência num universo violento e caótico. A única solução era continuar comendo numa tentativa de compensar o desconforto provocado pelo cenário.
No entanto, a minha refeição foi perturbada pela chegada de uns trinta adolescentes finlandeses louros e altíssimos. O choque de se verem tão ao sul e de trocar a neve glacial por uma simples chuva os havia deixado extremamente bem-humorados, o que eles expressavam abrindo as embalagens dos canudinhos, cantando alto e pulando nas costas uns dos outros - deixando confusos os funcionários da lanchonete sem saber se deveriam condenar tal comportamento ou respeitá-lo como uma promessa de apetites vorazes.
Levado pelos volúveis finlandeses a encerrar às pressas a minha visita, desocupei a mesa e saí para a praça logo ao lado, onde notei pela primeira vez as formas bizantinas incongruentes e grandiosas da Catedral de Westminster, o seu campanário em tijolos brancos e vermelhos erguendo-se 87 metros nos céus nevoentos de Londres.
Induzido pela chuva e a curiosidade, entrei num saguão cavernoso, mergulhado num breu contra o qual milhares de velas votivas se destacavam, as chamas douradas tremeluzentes sobre mosaicos e representações entalhadas da Via Sacra. Havia cheiros de incenso e sons de preces murmuradas. Pendendo do teto, no centro da nave, um crucifixo de dez metros de altura, com Jesus de um lado e sua mãe do outro. Em torno do altar principal, um mosaico mostrava Cristo entronizado nos céus, rodeado de anjos, os pés descansando sobre um globo, as mãos segurando um cálice transbordando com o seu próprio sangue.
O alarido superficial do mundo externo dera lugar ao deslumbramento e ao silêncio. As crianças ficavam perto dos pais e olhavam em volta com um ar de intrigante reverência. Os visitantes instintivamente sussurravam, como se imersos num sonho coletivo do qual não desejassem emergir. A anonimidade da rua havia se subordinado a um tipo peculiar de intimidade. Tudo que é sério na natureza humana parecia ter despertado: pensamentos sobre limites e infinitude, sobre impotência e sublimidade. O trabalho de cantaria dava relevo a tudo que era acomodado e monótono, e inspirava um desejo de estar à altura da sua perfeição.
Depois de dez minutos na catedral, uma série de idéias que seriam inconcebíveis do lado de fora começaram a assumir um ar de sensatez. Sob a influência do mármore, dos mosaicos, da escuridão e do incenso, parecia totalmente provável que Jesus fosse o filho de Deus e tivesse caminhado sobre as águas do mar da Galiléia. Na presença das estátuas de alabastro da Virgem Maria, em contraste com as seqüências regulares de mármores vermelhos, verdes e azuis, deixava de ser surpreendente pensar que um anjo pudesse a qualquer momento descer, atravessar as densas camadas de nuvens sobre Londres, entrar por uma janela na nave, tocar um trompete dourado e anunciar em latim a iminência de um evento celestial.Idéias que pareceriam loucura a quarenta metros dali, na companhia de um grupo de adolescentes finlandeses e bacias de óleo para fritura, tinham conseguido - por obra da arquitetura - adquirir suprema importância e majestade.
* trechos do livro arquitetura da felicidade, de alain de botton.

14 de julho de 2009

7 de julho de 2009

caminho.



Recebemos a chave e ouvimos apenas as seguintes palavras:
Novo – Radical – Curioso
E assim começou a transição para o novo projeto, mal sabia o cliente que nosso trabalho só se manifesta verdadeiramente nesse clima de liberdade absoluta. (tá bom, vai! os limites “custos x prazos” foram impostos).
Valendo se dessas definições, concluímos que o projeto deveria inspirar confiança e assim partimos com essa fantasia inquieta.
O espaço reinventado deixou bem para claro para o querido cliente, quem ele realmente pode ser.

18 de junho de 2009

Objectified.


Trailer do novo documentário de Gary Hustwit, fala sobre os processos criativos de alguns poderosos designers. Um olhar crítico sobre a reinvenção dos objetos do nosso dia-a-dia, analisando a forma como eles influenciam em nossas vidas.

9 de junho de 2009

8 de junho de 2009

paraisópolis



O projeto de urbanização da favela Paraisópolis, será uma das atrações da 4ª Bienal Internacional de Arquitetura de Roterdã. A bienal holandesa é uma das mais importantes da arquitetura, é reconhecida por sua tendência social, e esse ano será direcionada para pesquisa de projetos urbanísticos em prol do bem das cidades.
O Programa Paraisópolis – um dos mais ousados e criativos projetos de urbanização de favelas – foi descoberto pelo curador da mostra, Kees Christiaanse, que esteve em São Paulo para o Urban Age e visitou a comunidade.
Paraisópolis, onde vivem 60 mil pessoas, teve seu projeto elaborado pela prefeitura de São Paulo e prevê a implantação de sistemas de captação de energia solar e de água de chuva, a canalização do córrego Antonico, a revitalização da área de risco do Grotão, além da construção da Avenida Perimetral, ciclovias e áreas de lazer, entre outros.
As obras da favela de Paraisópolis poderão ser vistas durante a mostra que será realizada de 24 de setembro a 10 de janeiro de 2010.

2 de junho de 2009

less is more.


O situ studio desenvolveu para exposição “De dentro para Fora” no Guggenheim, em NY, uma série de modelos das casas de Frank Lloyd Wright.
Entre os projetos está o da Casa Jacobs (1936), que apresenta sua forma em desconstrução, as camadas suspensas no ar permite que o público consiga entender os mecanismo internos do espaço funcional de Wright.

1 de junho de 2009

25 de maio de 2009

cores


Um local em que arquitetura e moda convivem muito bem é a Mini Humanos, um misto de loja, casa, oficina de arte que trouxe muito estilo para o mercado de roupas infantis. As peças das coleções são modernas e descoladas tem como referência o Brasil, as etnias, a arte pop e o universo roqueiro, com direito a David Bowie estilizado.
Colorido e divertido, o projeto da loja estimulou nossa criatividade.
Recomendamos!

9 de maio de 2009

femmes du monde.


Depois da apresentação no Musée de L’Homme, em Paris, o artista e navegador, Titouan Lamazou, de família francesa, mas nascido em Marrocos, apresenta a exposição “Mulheres do Planeta”, em São Paulo, na Oca, a partir da próxima segunda-feira, 11 de maio. Mais uma comemoração do ano da França no Brasil.
Nesta mostra ele retrata a força da mulher atual através de fotografias, pinturas, vídeos, textos e desenhos realizados pelo artista, durante a sua viagem de sete anos pelos cinco continentes do mundo.
Na etapa brasileira o artista usou como referência o “sertão” de Guimarães Rosa, do livro “ Grande Sertão: Veredas”, que virou a sua grande paixão.
Vale a pena conferir!



29 de abril de 2009

justo.



O suíço Peter Zumthor é o vencedor do Prêmio Pritzker de Arquitetura de 2009.
Com uma arquitetura discreta e ao mesmo tempo forte, ele projeta o essencial.
Suas idéias evidenciam o grau de sua sensibilidade. Faz, em suas próprias palavras, uma filosofia da arquitetura. "Eu acredito que a arquitetura hoje necessita de reflexão com relação às tarefas e possibilidades que lhe são inerentes. Arquitetura não é um veículo ou um símbolo para coisas que não pertencem à sua essência. Em uma sociedade que celebra o não-essencial, arquitetura pode colocar uma resistência, agir contra o desperdício de formas e significados, e falar sua própria língua. Eu acredito que a linguagem da arquitetura não é uma questão de um estilo específico. Todo edifício é construído para um uso específico e um lugar específico para uma sociedade específica. As minhas obras tentam responder às questões que emergem desses simples fatos, tão precisas e críticas quanto podem".

25 de abril de 2009

Onde está a minha bicicleta?


Movido a energia 100% humana

Uma densa névoa ainda cobre o sol quando Alexandre Delijaicov sobe a rampa da garagem do edifício onde mora, com sua bicicleta azul de 18 marchas. Há dez anos, ele usa apenas a bicicleta como meio de transporte. Os trajetos variam conforme o dia, numa rotina programada. Hoje, como toda terça-feira, ele vai para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a FAU da USP, onde é professor de projeto.
À primeira vista, Delija, como os alunos se referem a ele, é um homem calmo, de fala lenta e sincopada. Alto, magro, de cabelos pretos bem curtos, tem a fisionomia marcada por óculos retangulares, cuja armação marrom acompanha só a parte de cima das lentes. Quando ele começa a se agitar, o que será perceptível apenas mais tarde, os óculos se inclinam e perdem a simetria no rosto.
A bicicleta de Delijaicov tem um alforje no bagageiro onde ele guarda calças impermeáveis e uma capa, para os dias de chuva. Ele costuma vestir jeans, camisa branca de mangas compridas, com os punhos abotoados, calça tênis de camurça marrom-café e leva uma bolsa de lona preta cruzada no peito. É difícil imaginar que essa seja a indumentária ideal para percorrer sete quilômetros e meio de bicicleta. A maneira de se vestir, no entanto, é a primeira característica que diferencia o professor de arquitetura da maioria dos ciclistas. Para ele, andar de bicicleta não é um esporte; é um jeito de chegar ao trabalho. Necessariamente, ele não pode transpirar ao pedalar: nenhum professor (exceto os de educação física) pode dar aula suando.
Por isso, ele sai sempre cedo, com toda a calma do mundo, quando os carros ainda não ocuparam todas as áreas de estacionamento, modificando a largura das ruas. É seu “exercício diário de desaceleração”, diz. Sobre duas rodas ele percorre de doze a catorze quilômetros, entre ida e volta, e desvenda uma cidade que os paulistanos geralmente não vêem, protegidos pelos vidros dos automóveis e ônibus.
Duas vezes por semana, ele vai de casa, no bairro do Itaim, de classe média alta, para a Cidade Universitária. Nos outros três dias, segue para o escritório de projetos da prefeitura, no Largo do Paissandu, no centro da cidade. Costuma levar de 35 a 40 minutos de porta a porta. As direções são quase opostas, e as condições também: enquanto para a USP o caminho é plano e mais longo, para o centro é acidentado, cheio de subidas.
O professor reconhece que pedala como uma “tartaruga”, e atribui a essa prudência o fato de nunca ter tido um acidente. Seus roteiros são fixos e evitam as grandes avenidas. Ele conhece o nome de cada rua por onde passa, mantém sempre a direita, na mesma mão dos carros, e segue todas as normas do Código de Trânsito Brasileiro. Também inventa gestos que, para a maioria, não fazem muito sentido. Como, por exemplo, o braço estendido à esquerda para indicar “não me cortem, vou seguir em frente”.
Como foram testados, os hábitos minuciosos de Delijaicov têm razão de ser. A camisa branca serve para refletir a luz, e as mangas abotoadas, para que qualquer movimentação de seus braços seja bem visível. Nunca ouvir música enquanto pedala é outra de suas normas. “É para escutar os sons da cidade, como canta o Arrigo Barnabé”, diz. Levar o laptop na bicicleta foi um teste que deu errado. Nas duas tentativas, a trepidação danificou a placa de vídeo. Há outra coisa que ele evita a qualquer custo: óculos escuros. “Tenho que captar o olhar do motorista e ele o meu, ele tem que saber que estou olhando para ele”, diz. “Nada substitui o olho no olho na comunicação humana. Você seduz e oprime pelo olhar.” No passado, o professor chegou a usar óculos escuros. Mas se deu conta de que levou um número de fechadas maior do que o habitual. “Pelo olho, você capta o motorista que é cínico, safado – quando você está de óculos escuros, o cara finge que não lhe vê.”
Apesar de tantos cuidados, Delijaicov comete diariamente uma enorme imprudência: não usa capacete. Seu argumento, ou sua desculpa, como ele mesmo reconhece, é que o capacete retira o olhar periférico e um pouco do ouvido, coisas que interferem no “equilíbrio sinestésico”. Mesmo sem capacete, ele não se sente desprotegido. A confiança é um patrimônio que conquistou, e talvez derive do fato de conhecer todos os sinais de trânsito, cruzamentos, ondulações do asfalto, valetas. Por onde anda, cumprimenta as pessoas que, todos os dias, naquela hora, atravessam seu caminho. Os seguranças de terno escuro do Jardim Europa, o carroceiro da Rua Ibiapinópolis, perto do Shopping Iguatemi, um ou outro ciclista com roupas simples que, como ele, também vai ao trabalho, só que provavelmente para uma construção.
A travessia das alças que dão acesso à ponte sobre o Rio Pinheiros é um dos maiores perigos no seu caminho para a USP. Não há sinal e, em função das curvas, às vezes é impossível ver os carros se aproximarem, em alta velocidade. Ninguém pára para dar passagem aos que aguardam na faixa de pedestres, e o único jeito é atravessar correndo, numa brecha eventual. É o que fazem todos: o cara de bicicleta, quem está a pé e a mulher de casaco vermelho, com uma criança no colo e outra pela mão.
Se dependesse do professor, os motoristas seriam reeducados à força. Um decreto federal suspenderia todas as carteiras de habilitação, como se fossem portes de armas. “A frota paulistana de cinco milhões de automóveis está nas mãos de uma minoria”, sustenta. “São eles que alimentam esse poder mesquinho e deixam resignada a maior parte da população. Olhe bem quem faz fila dupla na porta das escolas, sentadas em carros blindados: são pessoas acima do peso, que deveriam estar numa academia.”
Delijaicov já alterou percursos devido a ruas residenciais que foram fechadas com grades e portões. Quando toca nesse tema, ou fala de injustiças, o professor se empolga. Não adianta perguntar o que quer que seja. Uma pergunta sobre sua percepção da cidade como ciclista pode ter como resposta a atitude do Brasil na guerra do Paraguai, os diques da Holanda ou a inutilidade “daquela turminha” de Saint-Germain. “Você vai achar que eu sou um ressentido, mas o nosso horror é esse comportamento do colonizado que ficou com o olhar do colonizador.”
Vista pelos olhos de um ciclista, a percepção da cidade é, sem dúvida, mais dura. A poluição nos trechos mais congestionados, onde há excesso de fumaça e poeira em suspensão, faz o nariz escorrer continuamente. As ruas, mesmo nos bairros nobres, sentidas pelos solavancos do selim são mais esburacadas e remendadas que quando amortizadas pela suspensão de um automóvel. E na orientação que o guidão traça no solo é preciso estar atento para cada obstáculo, o que torna impossível ignorar os sem-teto que dormem na subida das passarelas ou na ponte da Eusébio Matoso. São detalhes de São Paulo que o paulistano motorizado tende a evitar.
A idéia, bem brasileira, segundo a qual a bicicleta é um meio de transporte para pobres, deixa Delijaicov irado. Mas ele mesmo já se acostumou à discriminação. Quando sobe uma das ruas de comércio de luxo da zona oeste, à noite, na volta da faculdade, já nem liga ao ouvir o barulho das portas dos automóveis sendo travadas, à medida que sua proximidade fica perceptível pelo retrovisor.
Numa noite em que voltava da Faculdade de Belas Artes, onde lecionava, a corrente estourou e, sem opção, ele teve que empurrar a bicicleta grande parte do caminho. No meio do trajeto, no Jardim América, um guarda de rua se aproximou dele e falou penalizado: “Pô, amigo, por que você não compra uma motoca?” Um de seus vizinhos também já havia dito à sua mulher: “Fala para o seu marido que não fica bem um professor da USP ir trabalhar de bicicleta”.
Para quem vê de fora, o campus da USP parece um paraíso para os ciclistas. De perto, é nele que o professor atravessa alguns dos trechos mais complicados do seu trajeto diário. As rotatórias são perigosas, e as fechadas, constantes. Quando o sinal fecha, e está próximo a um ponto de ônibus, ele espera pacientemente. É mais um de seus procedimentos: “Nunca ultrapasso um ônibus num sinal, ou na hora do embarque e desembarque: alguém pode descer, e aqueles segundos podem ser fatais”. Enquanto pedala pela praça da reitoria, Delijaicov explica que “o traçado da cidade universitária é de um urbanismo rodoviarista, feito para o automóvel”, exatamente como Brasília. “É uma ‘pseudocidade-jardim’, que usa argumentos de parques urbanos, mas que no fundo não passa de uma falácia.”
Além da FAU, o professor ciclista trabalha no Departamento de Edifícios Públicos, divisão da prefeitura onde arquitetos e engenheiros projetam de crematórios a escolas. É um trabalho, coletivo e anônimo, do qual se orgulha muito. Outra marca no currículo é sua tese sobre a navegação fluvial urbana. “Muitos me acham um louco ou um romântico, com um pensamento típico dos séculos XVIII e XIX.” Pelas demandas da tese, Delijaicov passou quinze anos visitando a Holanda periodicamente. Lá, aprendeu muito sobre o ciclismo urbano. Sobre o funcionamento prático do que chama “trilhos urbanos”, sistema que prevê a integração de diferentes meios de transporte e o incentivo público a todos eles, em detrimento do automóvel.
Na contramão da ideologia brasileira, os países europeus agregam cada vez mais a bicicleta aos meios de locomoção. O aquecimento global, as conseqüências do uso do automóvel e os congestionamentos constantes das grandes cidades são as razões óbvias. O exemplo mais recente vem de Paris, onde uma frota de bicicletas públicas cinza-chumbo tomou conta das ruas, no mês passado, e começou a mudar a paisagem da cidade. Na primeira fase do plano Vélib, orquestrado pela prefeitura, foram colocadas à disposição dos parisienses 10.648 bicicletas em 750 estações. Por um custo irrisório é possível andar sobre duas rodas a distância desejada – os primeiros 30 minutos são de graça. O objetivo da municipalidade de Paris é que, além de servir para pequenos trajetos, a bicicleta seja conectada a outros transportes. Providencialmente, grande parte dos bicicletários foi construída junto às estações de metrô, trens e aos pontos de ônibus.
O plano chega a Paris depois de ter obtido bons resultados em Lyon, onde foi implantado em 2005. A meta é que até o final deste ano a capital francesa tenha 20 600 bicicletas da prefeitura posicionadas em 1 451 pontos “Vélib”, ou seja, um a cada 300 metros – quatro vezes mais que o número de estações de metrô. Os franceses já falam na revolução das bicicletas como marco do novo “transporte coletivo individual”. Com nomes e apelos publicitários diferentes, sistemas semelhantes foram introduzidos em Viena, na Áustria, Gijon e Córdoba, na Espanha, e Bruxelas, na Bélgica. Na França, já existe em Rennes e está em fase de lançamento também em Aix-en-Provence e Marselha. Há muito as bicicletas públicas fazem parte da paisagem urbana na Holanda e na Dinamarca.
Delijaicov só pode ver com bons olhos iniciativas como essas. Especialmente porque a mais recente vem da França. “Nunca olhamos para o nosso vizinho, mas uma experiência urbana parisiense pode ter um impacto positivo sobre toda a América Latina,” diz ele. “Basta dizer que aqui ao lado, em Bogotá, fizeram uma rede de ciclovias para valorizar o passeio público, e ninguém no Brasil deu a menor atenção.”
Embora não goste de ser visto como um ciclista militante, o professor está envolvido em trabalhos de extensão, na própria faculdade, para o estudo e a viabilidade de ciclovias urbanas. Desde que ele e a mulher venderam um dos carros da família, e transformaram o outro numa “espécie de adorno da garagem”, cada vez mais ele se confessa seduzido pelas vantagens de desfrutar o espaço público.
Aos 45 anos, e com dez de experiência nos pedais, Delijaicov tem esperança na mudança de comportamento da sociedade com relação aos ciclistas, e sente uma espécie de gratificação por fazer sua pequena parte todos os dias. Há um grupo de discípulas que seguem seus passos no ciclismo. Algumas vão em frente, outras desistem depois de um tempo, por considerar que São Paulo não é receptiva à bicicleta. É um argumento que não o demove de buscar novos adeptos. “Você também pode mudar e largar o automóvel, basta querer!” – insiste com os alunos, ou com qualquer outro interlocutor com quem cruza pelas rampas da faculdade. “O que é um século na história das cidades? Nossas cidades são como nós, obras inconclusas, não passam de acampamentos – acampamentos de refugiados que não sabem pra onde ir. Só nós podemos nos opor a essa mercantilagem vil e peçonhenta do espaço urbano. O inferno não são os outros, somos nós.”
Quando fala de questões urbanas, o professor é assim mesmo, grandiloqüente. Depois, silencioso e atento a tudo, segue solitário pelas ruas de São Paulo com sua bicicleta holandesa, sem grife, onde se lê apenas “on the road”. Se você o acompanhar, por uma manhã que seja, nunca mais vai olhar os ciclistas da mesma forma.


Maria da Paz Trefaut
Revista Piauí

13 de abril de 2009

ano de 2008



Uma casa nova com logradouro, projeto com a cara das arquitetas.
Ele, o cliente - um rapaz em crise - em busca da arquitetura, aquela da felicidade.
Rua arborizada. O sol entra pelas janelas dos andares. O som baixo do tráfego alguns quarteirões pode ser notado.
A casa dá sinal de vida. Participou das primeiras seduções, se transformou numa testemunha bem informada. Um refúgio psicológico.
Ela, uma amiga íntima, recém-separada. Foi morar com ele atrás da arquitetura. O cimento não intimida. A decoração inacabada. A escada chama atenção para o cotidiano.
Embora esta casa não tenha respostas para os males que assombram os ocupantes, ela contribui aparentemente com a felicidade dos envolvidos, uma fase inesquecível e, surpreendentemente, cheia de bons momentos e muita intimidade.

6 de abril de 2009

e a luta continua



O projeto de lei para criação do CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo – voltou a ser discutido pelo Governo Federal em solenidade de lançamento do Programa Minha Casa Minha Vida realizada em Brasília.
A luta de mais de 50 anos em defesa da criação de um conselho exclusivo para os arquitetos parece estar chegando ao fim, já que o governo quer sancionar o projeto de lei ainda este ano. Durante o discurso reconheceu nossa importância no desenvolvimento do projeto do Programa Um Milhão de Casas para o Brasil e na qualidade final das casas a serem disponibilizadas aos trabalhadores brasileiros. Lula afirmou ainda que nossa participação na Comissão Gestora do Programa é indispensável.
Enfim, o assunto em evidência novamente, faz muito tempo que precisamos da regulamentação e de uma estrutura institucional que zele pelo cumprimento da arquitetura, pois a cada dia que passa ela fica exacerbadamente mais desvalorizada.

30 de março de 2009

repúdio ao " projetinho".




Carta ao cliente

Confesso que não me assustei muito ao ler sua carta contando o resultado da conferência para autorização de um projeto para o São Lucas. Estas coisas acontecem sempre porque, por falta de costume, quem constrói, nem sempre avalia o plano de como deveria fazê-lo. Se eu insisto em aconselhá-lo mais uma vez para que consiga um arquiteto para dirigir os trabalhos de seu hospital, não é somente porque desejo muito trabalhar para um hospital modelo, mas porque, e principalmente porque, não posso crer que uma obra, da importância da sua, possa nascer sem estudo prévio. É vezo brasileiro fazer as coisas sem plano inicial perfeitamente elaborado; quando se pergunta sobre como ficarão estes e aqueles pormenores, a resposta é sempre a mesma: Ah! Isso depois, na hora, veremos.

Assim fazem-se as casas, os prédios, as cidades; nesse empirismo vive a lavoura, a indústria e o próprio governo. O planejamento, mercadoria altamente valorizada em todo mundo para qualquer realização, não encontrará entre nós o ambiente propício enquanto nós moços não nos capacitarmos da sua necessidade imprescindível. Poderia continuar conversando com você sobre a grande vantagem de planejar com antecedência, até amanhã, sem esgotar todos os argumentos e provavelmente terminaria por dizer que é até demonstração de patriotismo e inteligência. Mas com isso não convenceríamos ninguém; talvez muito mais vantajoso seria confinar a discussão entre os limites das vantagens particulares, individuais de aplicar o método. Então vejamos. A pergunta é sempre a mesma; -"que vantagem poderíamos ter em gastar CR$ 65.000,00 em um projeto somente? O projeto não é o prédio; muito pelo contrário, somente uma despesa a mais! Contratando a construção o projeto viria de graça, feito pelo próprio construtor e nós economizaríamos 5% sobre o valor do prédio. Com esses 5%, no caso de querermos gastá-lo, até poderíamos melhorar algumas condições do edifício; enriquecer alguns materiais etc..."

Garanto que os argumentos acima lhe foram expostos mais de uma vez. São os que sempre vejo empregados em ocasiões dessas e nunca mudam. São também os mais fáceis de rebater e os menos inteligentes.

Senão vejamos: "...O projeto sempre custa alguma coisa. O construtor que o fizer terá, sem dúvida que empregar engenheiros e desenhistas para isso. Terá de empregar gente para calcular concreto, para calcular aquecimento, eletricidade, etc... O construtor cobrará essa despesa do proprietário através da comissão para a construção. Tanto isso é verdade que, se você apresentar aos construtores um projeto completamente pronto, ele cobrará percentagem menor para a construção porque dirá, "não terei despesas no escritório". Suponhamos que a taxa de honorários para a construção seja de 10 a 12%, inclusive o projeto. Se você der o projeto, encontrará quem lhe faça por 6 ou 8%. Daí você conclui que o projeto que você pagou ao arquiteto 5%, já representa nessa ocasião somente 1% ou 2% a mais do que o preço geralmente previsto.

Mas eu desejo provar que o plano geral, feito com antecedência, é economia e não despesa. Então vamos continuar. Ninguém pode negar, nenhum construtor, nenhum cliente, que o projeto feito pelo técnico, contém em si uma previsão maior dos diversos detalhes do que o projeto rabiscado pelo construtor e verificado pelo proprietário. Faça uma experiência. Tome um plano que esteja em início de construção e pergunte a quem o dirige: por onde passam os canos de aquecimento? Por onde passam os canos de esgoto? O senhor vai fazer antes isso ou aquilo? Garanto que não sabem.

Responderão: "provavelmente passarão por aqui ou ali, farei isto ou aquilo antes. Se na ocasião de executar um serviço, verificar-se um contratempo qualquer, um cano que não pode passar porque tem uma porta, um esgoto vai ficar aparecendo no andar de baixo; o construtor resolve em função do problema, no momento. Ele dá voltas com o cano ou faz um forro falso para esconder o esgoto que iria aparecer em baixo. Entretanto se isso tivesse sido previsto, não precisaria de forro falso ou qualquer outra coisa. No papel, teria sido procurada e encontrada a solução mais econômica, para o caso, a mais bonita.

Consulte um construtor experimentado ou alguém que já tenha construído e todos serão unânimes em contar-lhe pequenas calamidades que apareceram. Eu já ouvi diversas vezes, por exemplo: "Quando colocamos as fundações no terreno nós vimos que o quarto ficaria enterrado. Então levantamos as fundações mais cinqüenta centímetros para dar certo. Por isso deu uma escada na entrada e ficou com um porão, etc... Se você calcular quanto mais caro ficou a imprevisão, você verá a vantagem de ter um projeto estudado. O arquiteto teria dado uma disposição diferente nos cômodos de maneira que o tal quarto não ficasse enterrado, sem ter que aumentar as fundações e assim economizaria o dinheiro com o qual se faria pagar.

Se o proprietário não ganhasse nada, ainda teria para si uma solução melhor e um motivo para valorizar seu imóvel. O construtor por exemplo não projetaria as instalações elétricas. Ele chamaria um instalador "prático" e o homem disporia a coisa à sua vontade. Usaria os canos que ele quisesse e os fios que achasse melhores. Bem curioso, não é ? Poucos entendem disso e ninguém iria fiscalizar o homem. Acontece, porém que os fios, quando são fios demais em relação à corrente que transportam, dão muitas perdas, e essas se traduzem em despesa mensal maior de energia para você durante os 50 ou 100 anos de funcionamento do hospital; assim você pagaria 100 vezes um bom projeto de distribuição de eletricidade. Estou apenas repetindo casos cotidianos.

Do funcionamento do hospital ainda mais, o construtor provavelmente não entende e nem terá tempo suficiente para estudar. Ele não é especializado em hospitais porque isto é Brasil e depois não estudam porque não é o seu métier. Ora, assim sendo, ele vai confiar em você. Você conhece hospitais já feitos e em funcionamento, como hospitais, não como construções. Os seus preconceitos, a respeito, o construtor repetirá com o dinheiro de seu bolso. As soluções que, para alguns casos que você viu, são soluções econômicas poderão constituir soluções caríssimas, no seu caso. Rematando, sua casa de saúde não teria o melhor aspecto porque faltou um artista.
Arquitetura, é construção e arte. Arte. Arte não tem livro de regulamento que ensine. Nasce dentro de cada um e desenvolve-se como conjunto de experiências. Procure um homem que possa das à sua casa de saúde, além das características de um hospital eficiente pelo perfeito planejamento das diversas sessões, um valor artístico indiscutível.

O valor artístico é um valor perene, enorme, inestimável. É um valor sem preço e sem desgaste. Pelo contrário, aumenta com os anos à proporção que os homens se educam para reconhecê-lo. O valor artístico subsiste até nas ruínas. Os anos correm e desgastam o material, enquanto valorizam o espiritual.

Com a consciência limpa termino minha proposta. Está em suas mãos a responsabilidade de decidir entre os caminhos. De um lado eu me coloco, não só, mas como representante dos arquitetos brasileiros, defendendo a economia, a ordem e acima de tudo, o futuro. De outro lado, o empirismo, a reação, a imprevisão.


Qualquer solução que você venha a dar não mudará as relações entre nós, nem sua opinião futura sobre o que acabo de escrever. Se o prédio for bom, bem projetado, bem planejado, por um bom arquiteto, você gostará, todos gostarão; se ele não prestar, se custar muito, se não funcionar, ser for feio ou sem personalidade, sem valor artístico, sem plano nenhum, o resultado será o mesmo. Em todos os dois casos você adquirirá experiência e acabará por trabalhar sempre do meu lado e com os meus argumentos. Nós venceremos sempre como eu queria demonstrar.
Pague pois o que eu pedi. É pouco em relação às vantagens futuras. Ou não pague, e as vantagens serão as mesmas, para a sociedade evidentemente, não para você.

Com um abraço afetuoso do amigo certo,

Vilanova Artigas

São Paulo, julho de 1945


Carta retirada do livro Vilanova Artigas Série Arquitetos Brasileiros, paginas 49, 51 e 52

25 de março de 2009